“Um tênue fio nos liga / de segredos e esperanças / como um cordão que alimenta / e ameaça romper-se / a qualquer hora. // Fio de vida e de morte / um tênue fio das Moiras / construído passo a passo / de ilusões e memória. // Construtoras do destino / tecelãs de nossas vidas / fiamos juntas, sozinhas, / tecidos de eternidades. // Fiando às vezes silêncios / os fios se embaraçam, / dão nós e arrebentam… // E do nada surgem, então, / como de mãos invisíveis, / lãs quentes, jutas rudes, / sedas suaves… // E voltamos a tecer, / num trabalho incessante, / fiandeiras de nós mesmas, / tecidos de nossas almas.”
— Célia Gago, Fiandeiras
Resumo
O presente artigo objetiva direcionar o olhar para a ancestralidade da tecelagem, dos mitos e da Arteterapia. Pretende-se argumentar como fios entrelaçados com a energia arquetípica dos mitos podem ser tramados na urdidura da Arteterapia, para guiar uma conexão com a ancestralidade, alcançando a sabedoria e a força de todas que teceram antes de nós.
No decorrer do artigo serão apresentados alguns pilares conceituais da Arteterapia, ressaltando a importância do setting terapêutico, do olhar cuidadoso do arteterapeuta para necessidade do seu atendido e da atenção com a linguagem expressiva dos materiais. Arteterapia, mitos e tecelagem dialogam para compor uma vivência com objetivo de, através da tecelagem, estabelecer uma conexão com a ancestralidade dos participantes.
Palavras-chave: Arteterapia. Fios. Tramas. Tecer. Mitos. Ancestralidade.
Sumário
Este artigo está organizado em 10 partes, cada uma acessível nos links abaixo. Acompanhe a jornada dos fios que entrelaçam saberes ancestrais com a prática arteterapêutica.
Os três fios do estudo e o objetivo de conectar saberes ancestrais com a prática arteterapêutica.
Das cavernas pré-históricas a Jung, Nise da Silveira e Glícia Manso: a arte como caminho de expressão e cuidado.
O setting terapêutico, o olhar do arteterapeuta e a linguagem expressiva dos materiais como pilares.
O inconsciente coletivo, os arquétipos e como os mitos se entrelaçam com a prática arteterapêutica.
Das Moiras a Penélope, de Arachne a Anansi: a tecelã no imaginário coletivo de diversos povos.
Tecer como ato de ordenar, entrelaçar e apropriar-se do próprio fluxo criativo e existencial.
A agulha de madeira, os fios de malha, o tear de papel e os contos que compõem a vivência.
Cantigas de fiar, a seleção do repertório e o canto espontâneo que embalou a vivência.
A descrição completa da vivência: passeio na tenda, três tecituras e o altar das tecelãs.
Reflexões sobre a força dos fios e o convite: teça livremente!
“Tecer era tudo o que fazia. / Tecer era tudo o que queria fazer.”
— Marina Colasanti