“A Arteterapia é um fazer que se norteia por um conjunto de estímulos visuais, sonoros, imagéticos, plásticos que através das mais variadas linguagens artísticas, se destina a despertar a consciência de si através da livre expressão concreta aos conteúdos do inconsciente.”
— Glícia Manso, 2001
Para além de uma definição
“Arteterapia: um tipo de psicoterapia em que você é incentivado a se expressar usando materiais artísticos.” Esta definição, encontrada no dicionário Oxford, está distante de definir um campo de saber tão plural e tão potente como a Arteterapia.
Com a definição de Manso, começamos a tecer a teia de saberes que compõem a Arteterapia. Ela está conectada com o fazer, com a materialidade de uma emoção, um sentimento, ou de algo que nem somos capazes de nomear. O conjunto de estímulos e diversas linguagens expressivas dos materiais facilitam o despertar da consciência e o pontilhar de novos caminhos rumo ao autoconhecimento.
Naumburg complementa: “A Arteterapia é um processo de criação e reflexão sobre a arte que pode nos ajudar a compreender a nós mesmos e aos outros em um nível mais profundo.” (1973). Neste processo rumo à individuação, temos o arteterapeuta como facilitador.
O olhar do arteterapeuta
O arteterapeuta é um profissional que se dedica de forma afetiva e atenta à necessidade do atendido. Ao selecionar materiais e técnicas apropriadas para cada atendido, viabiliza a jornada deste indivíduo rumo a seu processo terapêutico.
Pain e Jarreau destacam que o arteterapeuta deve ter um olhar atento, uma escuta ativa e uma ressonância afetiva, o que exige uma grande capacidade de concentração. Além disso, deve manter uma “atenção flutuante”, o que lhe permitirá ser permeável às diversas maneiras de expressão.
“O melhor caminho a ser seguido pelo arteterapeuta é o de andar em uma direção que vai sendo adquirida aos poucos, conforme a sua prática. Onde o conhecimento sobre a linguagem dos materiais de arte e seus recursos, juntamente com a demanda do cliente, vai ser como uma bússola que dará orientação a ser seguida, juntamente a sua intuição.”
— Carrano e Requião, 2022
O setting como espaço sagrado
Em um atendimento arteterapêutico, é importante considerar o local onde será realizado. Este deve ser um lugar sagrado, livre de julgamentos e onde se encontra acolhimento. Espaço onde o atendido pode deixar fluir seu inconsciente.
O setting de Arteterapia funcionará então como temenos: espaço sagrado de criação, labirinto formado de afetos e imagens. O fio condutor para o trabalho será dado pelas associações, analogias e descobertas feitas por cada um no confronto com cada obra e/ou durante seu processo de criação.
A linguagem dos materiais
Entendendo a Arteterapia como o fazer terapêutico, reside nos materiais e em sua linguagem expressiva a função de conduzir o atendido no seu fazer criativo e na livre expressão terapêutica.
O arteterapeuta tem em suas mãos uma vasta gama de materiais: colagem com papéis, tecidos, materiais reciclados, naturais; desenhos com lápis de cor, canetinha, giz de cera; modelagem com massinha, argila, papel machê; tecelagem e bordado com fios de variadas formas, cores, texturas. São muitas, quase infinitas as possibilidades.
Pain e Jarreau ressaltam que o arteterapeuta não pode deixar suas preferências pessoais influenciarem na escolha dos materiais. Para um atendimento eficaz, um setting terapêutico deve conter uma grande diversidade de materiais, escolhidos através do olhar atento e intuitivo do arteterapeuta.