“Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido.”
— Marina Colasanti
Tecer é ordenar a existência
Na Arteterapia, a tecelagem oferece inúmeras possibilidades de intervenções. “No processo arteterapêutico, tecer equivale a ordenar, a articular, a entrelaçar, a organizar, a apropriar-se do próprio fluxo criativo, existencial, além de nos trazer uma ideia de conexão. Nossas vidas estão sempre sendo tecidas com outras vidas, onde o fio de uma vida toca e interfere no fio de outra vida.” (PHILIPPINI, 2022).
As possibilidades do fio
Em uma vivência arteterapêutica, o atendido pode ser convidado a:
- Fiar, urdir, tramar — produzir novas tecituras.
- Interagir com os fios e suas múltiplas particularidades: material, textura, espessura, cor e cheiro.
- Tecer novas peças a partir de fios usados em outros trabalhos ou embolados.
- Cortar o fio, trocar de fio sempre que sentir que este é o caminho.
- Contemplar seu tecer e decidir destecer!
“O fio, com sua flexibilidade e estrutura, permite ao tecelão ressignificar experiências, tramar sua história, conscientizando-o de sua jornada rumo à individuação.”
— Cardoso, 2021
Tecelagem para todos
Philippini ressalta que a tecelagem em Arteterapia pode ser aplicada a diversos públicos, desde atendidos com processos clínicos severos a crianças, desde que sejam usados teares e técnicas de simples manejo. Fato que amplia a possibilidade de se beneficiar pela tecelagem.
A simplicidade do tecer se revela nos pequenos teares manuais: “Os pequenos teares manuais, confeccionados de papelão ou pequenas tiras de madeira, com ajuda de cordas ou pequenos pregos, oferecem a estrutura necessária para que se recrie a urdidura, e forme-se a tecitura. As cores dos fios e suas texturas oferecem o suporte à atividade criativa, desafiando o Imaginário a construir novas combinações.” (PHILIPPINI, 2009).
Inspirado neste embasamento teórico, pequenos teares de papelão reciclado foram desenvolvidos para compor a roda de tecelãs da vivência que veremos nos artigos seguintes.