# INSTITUTO FÊNIX DE HUMANIZAÇÃO TECENDO CONEXÕES COM A ANCESTRALIDADE NA URDIDURA DA ARTETERAPIA SANDREANE DA SILVA DIAS FERNANDES VITÓRIA/ES 2024 SANDREANE DA SILVA DIAS FERNANDES TECENDO CONEXÕES COM A ANCESTRALIDADE NA URDIDURA DA ARTETERAPIA Artigo apresentado ao curso de Arteterapia: Ênfase em Saúde e Educação do Instituto Fênix de Humanização, como requisito obrigatório à obtenção de título de especialista em Arteterapia. Orientadora: Prof. Me Glícia Manso Paganotto VITÓRIA/ES 2024 **RESUMO** O presente artigo objetiva direcionar o olhar para a ancestralidade da tecelagem, dos mitos e da Arteterapia. Pretende-se argumentar como fios entrelaçados com a energia arquetípica dos mitos podem ser tramados na urdidura[[1]](#footnote-0) da Arteterapia, para guiar uma conexão com a ancestralidade, alcançando a sabedoria e a força de todas que teceram antes de nós. No decorrer do artigo serão apresentados alguns pilares conceituais da Arteterapia, ressaltando a importância do: *setting* terapêutico, do olhar cuidadoso do arteterapeuta para necessidade do seu atendido e da atenção com a linguagem expressiva dos materiais. Arteterapia, mitos e tecelagem dialogam para compor uma vivência com objetivo de, através da tecelagem, estabelecer uma conexão com a ancestralidade dos participantes. Ao final deste artigo será compartilhada a descrição desta vivência, que foi facilitada com um grupo voluntário, de arteterapeutas, que contribuiu para este estudo. **Palavras chaves:** Arteterapia. Fios. Tramas. Tecer. Mitos. Ancestralidade. **ABSTRACT** This article aims to direct the look at the ancestry of weaving, myths and art therapy. Threads intertwined with the archetypal energy of myths are woven into the warp of art therapy, to guide a connection with ancestry, achieving the wisdom and strength that all that have woven before us. Throughout the article, some conceptual pillars of art therapy will be presented, highlighting the importance of: therapeutic setting, the art therapist's careful look at the needs of their client and attention to the expressive language of the materials. Art therapy, myths and weaving interact to create an experience with the aim of, through weaving, establishing a connection with the ancestry of the participants. At the end of this article, a description of this experience will be shared, which was facilitated with a volunteer group of art therapists, who contributed to this study. **Key words:** Art therapy. Wires. Plots. To weave. Myths. Ancestry. Fiandeira Um tênue fio nos liga de segredos e esperanças como um cordão que alimenta e ameaça romper-se a qualquer hora. Fio de vida e de morte um tênue fio das Moiras construído passo a passo de ilusões e memória. Construtoras do destino tecelãs de nossas vidas fiamos juntas, sozinhas, tecidos de eternidades. Fiando às vezes silêncios os fios se embaraçam, dão nós e arrebentam… E do nada surgem, então, como de mãos invisíveis, lãs quentes, jutas rudes, sedas suaves… E voltamos a tecer, num trabalho incessante, fiandeiras de nós mesmas, tecidos de nossas almas. Célia Gago **SUMÁRIO** 1. Introdução 06 2. ARTETERAPIA [0](#_iokme2frqady)7 2.1- Tecendo a história [0](#_iokme2frqady)7 2.1 - Uma teia de saberes [0](#_iokme2frqady)8 3. FIOS, MITOS & Arteterapia 10 3.1 - Mitos & tecelagem 11 3.2 - Tecelagem & Arteterapia 12 4. TECENDO CONEXÕES COM A ANCESTRALIDADE [.](#_3y0wjulx18ht) 14 4.1. O cesto da tecelã [.](#_3y0wjulx18ht) 14 4.2. Música e melodia [.](#_3y0wjulx18ht) 16 4.3 - Vivência: A tecelã e o tear musical [.](#_3y0wjulx18ht) 17 4.4 - Breve reflexões [.](#_3y0wjulx18ht) 18 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS [.](#_3y0wjulx18ht) 19 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS [. 20](#_3y0wjulx18ht) “Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.” Colasanti **1 - Introdução** Sinto a textura de cada fio da vida [...] No fluxo da vida Serei ,eu agora Em cada fio Em cada linha O próprio tecido Lina Passos A Arteterapia, a mitologia e a tecelagem são fios tramados no tapete da nossa história. São saberes que se entrelaçam e que fazem parte do nosso inconsciente coletivo. Podem estes saberes estabelecer uma conexão com a nossa ancestralidade? Com o objetivo de entender a possibilidade desta conexão, neste artigo será apresentada uma breve descrição de como estes saberes podem ser tecidos para embasar uma vivência arteterapêutica com a consigna: conexão com a ancestralidade. Por meio de pesquisa bibliográfica, este estudo foi tecido com três fios principais. O primeiro fio trouxe a essência da Arteterapia, o papel do arteterapeuta nos atendimentos, a importância do *setting* terapêutico e fundamentalmente o olhar cuidadoso para os materiais e suas linguagens expressivas. O segundo fio foi a ancestralidade da tecelagem. Entendemos como a tecelagem surgiu, como ela está conectada com a história da própria humanidade. “A origem do ato de tecer perde-se na noite dos tempos da memória humana, surgiu da necessidade de cobrir e proteger o corpo das intempéries.“ (PHILIPPINI, 2022, p. 60). O terceiro fio trouxe para o tear os contos e mitos. Para melhor entender a força ancestral dos mitos, buscamos um conciso entendimento da teoria do inconsciente coletivo e dos arquétipos. Acrescento que os fios deste estudo foram tramados na urdidura da Arteterapia, e o tapete tecido foi uma vivência nomeada++Ao final deste artigo, será compartilhado o descritivo desta vivência, assim como algumas percepções da facilitadora sobre a força dos fios e da ancestralidade inferida nesta vivência. **2 - Arteterapia** **2.1 Tecendo a história** “Há pessoas que nada vêem ou escutam dentro de si, mas suas mãos são capazes de dar expressão concreta aos conteúdos do inconsciente.” Carl Gustav Jung A história da Arteterapia começou a ser tecida no período após a segunda guerra mundial, como “possibilidade de tratamento de pacientes poli-traumatizados que não respondiam bem aos modelos convencionais de tratamento, surgiram novas formas de atendimento, denominadas ‘terapias expressivas’. Dentre elas, estava a Arteterapia.“ PHILIPPINI (2008) Mas a arte faz parte da existência humana, desde a pré-história nossos ancestrais expressavam seus símbolos, histórias e crenças usando os tetos e paredes das cavernas como tela. Diniz (2009) salienta que o homem já desenhava muito antes de escrever e que a arte sempre foi uma função estruturante da consciência. (DINIZ, 2009 apud PINA, 2011, p.26). O encontro da Arteterapia com a psicologia analítica começou a ser tecido no início do século XX com Carl Gustav Jung, o primeiro a utilizar a expressão artística em consultório. Para Jung, na arte acontecia a simbolização do inconsciente, em seus atendimentos pedia a seus atendidos que fizessem desenhos livres de imagens de sentimentos, sonhos, de situações conflituosas entre outras coisas, priorizando as expressão artística e a verbal como parte da cura. Grandes nomes teceram a Arteterapia pelo mundo: Em 1945, Adrian Hill utilizou pela primeira vez o termo Arteterapia no livro intitulado *Art versus Illness* (Arte contra enfermidade), educadora norte-americana Margaret Naumburg é considerada uma das fundadoras da Arteterapia nos Estados Unidos, junto com Edith Kramer e Marie Petrie. No Brasil, ressaltamos o trabalho pioneiro de Nise da Silveira que fundou a Seção de Terapêutica Ocupacional, em 1946 no Centro Psiquiátrico Engenho de Dentro. Esta psiquiatra tinha sua compreensão baseada na Psicologia Analítica (Jung). fez uso da pintura como meio de reintegração social de pacientes com esquizofrenia. No Espírito Santo, a professora Glícia Manso, plantou as primeiras sementes da Arteterapia em 2001 e no mesmo ano fundou a AARTES - Associação de Arteterapia do Espírito Santo. **2. 2 - Uma teia de saberes** “Arteterapia: um tipo de psicoterapia em que você é incentivado a se expressar usando materiais artísticos.” Esta definição, que encontramos no dicionário Oxford, está distante de definir um campo de saber tão plural e tão potente como a Arteterapia. No objetivo de melhor expandir nossa compreensão sobre a Arteterapia buscamos a ajuda de Manso, que traz uma definição muito mais pertinente. “A Arteterapia é um fazer que se norteia por um conjunto de estímulos visuais, sonoros, imagéticos, plásticos que através das mais variadas linguagens artísticas, se destina a despertar a consciência de si através da livre expressão concreta aos conteúdos do inconsciente.” (MANSO, 2001) Com esta definição começamos a tecer a teia de saberes que compõem a Arteterapia. A Arteterapia está conectada com o fazer, com a materialidade de uma emoção, um sentimento, ou de algo que nem somos capazes de nomear. O conjunto de estímulos e diversas linguagens expressivas dos materiais que a Arteterapia faz uso, facilitam o despertar da consciência e o pontilhar de novos caminhos rumo ao autoconhecimento. Conectamos a esta teia de saberes a definição de Naumburg, “A Arteterapia é um processo de criação e reflexão sobre a arte que pode nos ajudar a compreender a nós mesmos e aos outros em um nível mais profundo.” (1973) Neste processo rumo à individuação, temos o arteterapeuta como facilitador, profissional que se dedica de forma afetiva e atenta a necessidade do atendido. Ao selecionar materiais e técnicas apropriadas para cada atendido, viabiliza a jornada deste indivíduo rumo a seu processo terapêutico. Pain e Jarreau destacam que o arteterapeuta deve ter um olhar atento, uma escuta ativa e uma ressonância afetiva, o que exige uma grande capacidade de concentração. além disso deve manter uma “atenção flutuante” o que lhe permitirá ser permeável às diversas maneiras de expressão [...]. (PAIN e JARREAU, 1996, p.21). Não há um fio certo para tecer um arteterapeuta, vários fios precisam ser combinados e tecidos pacientemente com a agulha da intuição, é o que nos aconselha Carrano. O melhor caminho a ser seguido pelo arte terapeuta é o de andar em uma direção que vai sendo adquirida aos poucos, conforme a sua prática. Onde o conhecimento sobre a linguagem dos materiais de arte e seus recursos, juntamente com a demanda do cliente, vai ser como uma bússola que dará orientação a ser seguida, juntamente a sua intuição. (CARRANO e REQUIÃO, 2022). Em um atendimento arteterapêutico é importante considerar o local onde será realizado, entende-se que este deve ser um lugar sagrado, livre de julgamentos e onde se encontra acolhimento. Espaço onde o atendido pode deixar fluir seu inconsciente. O setting de Arteterapia funcionará então como temenos, espaço sagrado de criação, labirinto formado de afetos e imagens. O fio condutor para o trabalho será dado pelas associações, analogias e descobertas feitas por cada um no confronto com cada obra e/ou durante seu processo de criação. A complementação deste processo virá das informações simbólicas contidas nas fontes arquetípicas [...]. Estas fontes representam registros do inconsciente coletivo, reproduzidos no inconsciente de cada indivíduo como mapas psíquicos codificando as passagens do percurso da individuação que repetem-se através dos tempos, em essência de modo semelhante. (PHILIPPINI, 2004, p. 18). Entendendo a Arteterapia como o fazer terapêutico, reside nos materiais e em sua linguagem expressiva a função de conduzir o atendido no seu fazer criativo e na livre expressão terapêutica. A linguagem dos materiais e a sua relação terapêutica com o fazer arte vai se dar durante o processo de criação da imagem. Em uma relação existente entre a linguagem dos materiais, o fazer arte, o olhar e o refletir sobre o produto final. (CARRANO e REQUIÃO, 2022). O arteterapeuta tem em suas mãos uma vasta gama de materiais que, alinhavados com diferentes técnicas, podem ser usados em seus atendimentos: colagem com papel, tecidos, materiais reciclados, materiais, naturais,...; desenhos com lápis de cor, canetinha, giz de cera; modelagem com massinha, argila, papel machê; Tecelagem e bordado com fios de variadas formas, cores, texturas e usando diversos tipos de agulhas e propostas. São muitas, quase infinitas as possibilidades para serem trabalhadas. Pain e Jarreau ressaltam que o arteterapeuta não pode deixar suas preferências pessoais influenciarem na escolha dos materiais a serem usados em seu set terapêutico. Para um atendimento eficaz um set terapêutico deve conter uma grande diversidade de materiais. Os materiais a serem usados devem estar em consonância com as consignas a serem trabalhadas e serem escolhidos através do olhar atento e intuitivo do arteterapeuta. (PAIN e JARREAU, 1996, p. 17) Em razão dos materiais serem a alma deste trabalho, vamos tecer reflexões sobre os fios e suportes usados na tecitura[[2]](#footnote-1) no próximo capítulo. **3. Fios, mitos e Arteterapia** A Arteterapia, a mitologia e tecelagem são fios tramados no tapete da nossa existência. Saberes que se entrelaçam e que fazem parte do nosso inconsciente coletivo. Quando um arteterapeuta os tecem juntos, eles se complementam e compõem um diálogo potente para acessar conteúdos do inconsciente com o objetivo de conduzir o sujeito a seu autoconhecimento, sua individuação. Ao longo dos estudos deste trabalho, foram encontrados embasamentos teóricos, que demonstram a ancestralidade desses saberes. Embora a história aponte para o surgimento da Arteterapia no contexto de atendimento após a segunda guerra mundial, Diniz entende que ela já existia muito antes disso. “...ao desenhar os bisões na caverna, por exemplo, o homem já vivia a formação de sua consciência. As mãos que marcam as cavernas pré-históricas já podem ser compreendidas como uma vivência de identidade”. (DINIZ, 2009 apud PINA, 2011, p.26). Quanto ao ato de tecer, segundo Philippini, “A origem do ato de tecer perde-se na noite dos tempos da memória humana, surgiu da necessidade de cobrir e proteger o corpo das intempéries.“O homem pré-histórico observava a natureza, aprendia com ela e nela encontrava todo o material necessário para sua sobrevivência. Acredita-se que o homem observou teias de aranha e ninhos de pássaros para, então, entender que podia entrelaçar fios e fibras para criar: cestos, roupas, cobertores e itens que eles precisavam para evoluir”. (PHILIPPINI, 2022, p. 60). Os Mitos fazem parte de antigas tradições humanas, eles retomam nosso inconsciente coletivo. Nas próximas seções vamos lançar um breve olhar sobre mitos e tecelagem e seus diálogos com a Arteterapia, para melhor entender uma vivência em Arteterapia que integra esses saberes como o objetivo de levar o atendido a uma conexão com sua ancestralidade. **3.1 - Mitos & Tecelagem** Decifrar um mito é pois, decifrar-se. Brandão Os mitos habitam o imaginário da humanidade desde o início dos tempos. São narrativas fantásticas, que fazem uso de linguagem simbólica para explicar a origem do mundo e tudo aquilo que nele existe ou como passou a existir. Brandão (2009) salienta que o mito é uma representação coletiva, que é transmitida de geração após geração. “O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações”. (Brandão, 2009, apud PINA, p. 55) A partir dos estudos com seus pacientes e com sua própria experiência, Jung reconheceu duas camadas do inconsciente: o inconsciente pessoal e o inconsciente coletivo. O agrupamento de imagens mitológicas de todos os tempos, junto com as imagens pessoais, formam o inconsciente coletivo. Todos já nascemos com o inconsciente coletivo, “camada mais profunda do inconsciente” constituída por toda a herança de nossos ancestrais. O inconsciente coletivo revela-se através do mito. (GRINBERG, 2017, p.168). Lado a lado com as fontes pessoais, a fantasia criativa também desenterra a mente primitiva com as suas imagens encontradas nas mitologias de todas as épocas e de todos os povos. A totalidade destas imagens constitui o inconsciente coletivo, um herança potencialmente presente em todos os indivíduos. (JUNG, 1967 apud GRINBERG, 2017, p. 168/217) No inconsciente coletivo encontramos os arquétipos que são padrões coletivos de imagens, comportamento e símbolos. Os arquétipos formam uma matriz comum à toda humanidade. Segundo Grinberg, “do ponto de vista empírico, os arquétipos mais caracterizados são aqueles que, com frequência maior, afetam o ego: Grande Mãe, Pai, Persona, Sombra, Anima, Animus, Herói e Selfie (Si-Mesmo)”. (GRINBERG, 2017, p.168/177). Para efeito deste estudo direcionamos nosso olhar para o arquétipo da grande mãe: a aranha, a tecelã. A aranha é a fiandeira do destino do universo, que tem o poder de criar de dentro de si sua própria teia. A aranha tece fios, tece sonhos, tece novas realidades, tece caminhos, tece vidas! Em um mágico passeio pela nossa mitologia e literatura podemos acompanhar a imagem arquetípica da tecelã presente no imaginário coletivo de diversos povos, desde a antiguidade até os dias de hoje, podemos citar: as Moiras, fio de Ariadne, o tear de Penélope, Arachne & Atenas, Ix Chel \_ deusa tecelã da mitologia Maia\_, Anansi[[3]](#footnote-2) \_ a aranha contadora de história da mitologia africana e A moça tecelã de Colasanti. Em todos estes contos a tecelã tem o poder sobre os fios. A tecelã senhora do tempo e do destino que tece o fio da vida e decide quando cortá-lo \_ as Moiras. A tecelã que tece sua vida e redireciona seu destino, escolhe tecer ou destecer seus fios \_ Penélope e a moça tecelã. A tecelã que guia, que aponta o caminho \_ Fio de Ariadne. Em meio de tantos e tantos fios Diniz enfatiza a importância do conhecimento mitológico especialmente para a Arteterapia. “saber sobre os mitos é extremamente fecundo para Arteterapia, [...] por ser uma pintura da alma, onde estão as alegrias, os sofrimentos, as passagens dos movimentos e as transgressões que ocorrem no processo de individuação”. (DINIZ, 2014, p.7). A tecelagem aparece com um símbolo recorrente da criação, tanto do universo como da vida humana. O próprio Cosmos, segundo Eliade, é concebido como um tecido, como uma enorme rede. “No Cosmos, como na vida humana, tudo está ligado através de uma textura invisível. […] Certas divindades são as mestras desses ‘fios’ que […] constituem uma vasta ‘amarração’ cósmica”. (ELIADE, 1991,112 apud GAGO, 2011). **3.2 Tecelagem & Arteterapia** “desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido.” Marina Colasanti Na Arteterapia a tecelagem oferece inúmeras possibilidades de intervenções. “No processo arteterapêutico, tecer equivale a ordenar, a articular, a entrelaçar, a organizar, a apropriar-se do próprio fluxo criativo, existencial, além de nos trazer uma ideia de conexão, nossas vidas estão sempre sendo tecidas com outras vidas, onde o fio de uma vida, toca e interfere no fio de outra vida. De maneira poética nos conta Colasanti em "A Moça Tecelã”. (PHILIPPINI, 2022, p.61/62). Em uma vivência arteterapêutica, o atendido pode ser convidado a: fiar, urdir, tramar, produzir novas tecituras, interagir com os fios e suas múltiplas particularidades como: material que constitui, textura, espessuras, cor e cheiros. É possível tecer novas peças a partir de fios usados em outros trabalhos ou embolados, é possível cortar o fio, trocar de fio sempre que sentir que este é o caminho, é possível contemplar seu tecer e decidir destecer! “O fio, com sua flexibilidade e estrutura, permite ao tecelão ressignificar experiências, tramar sua história, conscientizando-o de sua jornada rumo à individuação.” (CARDOSO, 2021). Philippini ressalta que a tecelagem em Arteterapia pode ser aplicada a diversos públicos, desde atendidos com processos clínicos severos a crianças desde que sejam usados teares e técnicas de simples manejo. Fato que amplia a possibilidade de se beneficiar pela tecelagem. (PHILIPPINI. 2009. p. 61). Philippini traz a tona a simplicidade do tecer: “Os pequenos teares manuais, confeccionados de papelão ou pequenas tiras de madeira, com ajuda de cordas ou pequenos pregos, oferecem a estrutura necessária para que se recrie a urdidura, e forme-se a tecitura. As cores dos fios e suas texturas oferecem o suporte a atividade criativa, desafiando o Imaginário a construir novas combinações.” (PHILIPPINI. 2009. p. 61). Inspirado no embasamento teórico trazido por Philippini, pequenos teares de papelão reciclado foram desenvolvidos para compor a roda de tecelãs da vivência que será descrita a seguir. **4. Tecendo conexões com a ancestralidade** “Não sabemos se o pássaro tecelão contempla uma imagem interna ao seguir um modelo imemorial e hereditário na construção de seu ninho; mas, pelo que sabemos da experiência, nenhum pássaro tecelão inventou seu ninho. É como se a imagem da construção do ninho tivesse nascido com o pássaro.” C. G. Jung, Neste capítulo descrevo minhas experiências e percepções em uma vivência nomeada: “a tecelã e o tear musical”, cuja a consigna é a conexão com a sua ancestralidade. O objetivo é materializar a existência de cada uma das tecelãs em um pequeno tapete tramado, com fios de malha em um tear de papel. Trechos de contos, melodias e letras de músicas cuidadosamente escolhidas guiaram cada momento deste tecer. A vivência foi facilitada com um grupo de arteterapeutas do clube Viva, do qual faço parte e onde também foi dado o primeiro ponto desta vivência. A consigna base ‘a ancestralidade’ estava em completa sincronicidade com o momento vivido em meu processo arteterapêutico, portanto as propostas para compor esta vivência fluíram de minha alma espontaneamente. Na minha jornada por tecer uma vivência para conduzir uma conexão com a ancestralidade, juntei em meu cesto de tecer todos os itens que minha alma julgou importante: afeto, carinho, cuidado, fios, agulhas, contos, música e minha história. Tudo tramado fio a fio, sem pressa… permitindo que as conexões fossem surgindo a partir do sentir. Alinhavei nesta teia estudo teórico dos mitos cuja as narrativas traziam os arquétipos da tecelã, a materialidade e linguagem expressiva dos materiais no tecido da Arteterapia. Assim, nasce “a tecelã e o tear musical”. **4.1 - O cesto da tecelã** Iniciaremos o tecer da nossa vivência, detalhando os materiais que foram usados. Cada um dos materiais foram cuidadosamente escolhidos com foco em sua materialidade e linguagem expressiva, visto que estes materiais irão acompanhar e conduzir o participante em cada ponto de sua jornada. Entendendo a Arteterapia como área de conhecimento, que estuda profundamente as relações dos materiais artísticos com o ser humano, essa relação por trás da aparência. (Diniz, 2018). O conhecimento dos materiais e suas linguagens é essencial no fazer arteterapêutico, como explica Carrano. (CARRANO e REQUIÃO, 2022). Acreditamos que é de fundamental importância que o arteterapeuta conheça as qualidades terapêuticas dos materiais e sua linguagem subjetiva, pois estes são as ferramentas utilizadas por ele durante o processo criativo que levará à criação das imagens, à criação da forma e à materialização simbólica. (CARRANO e REQUIÃO, 2022). * Cesto de palha para armazenar os materiais Fibras naturais e o trançar delas, fazem parte do nosso inconsciente coletivo, foi através delas que tecemos nossos primeiros cestos de pescar ou possivelmente cerzirmos nossas primeiras vestimentas. A palha e o próprio cesto trançado de palha, conduz os participantes a uma viagem ao passado e a sua ancestralidade. * Agulha de madeira A agulha abre seu próprio caminho, vence resistências e conduz o fio. A madeira faz parte da história da humanidade desde o princípio dos tempos. É um material forte, acolhedor; remete a conforto, proteção e segurança. * Fios de malha Para melhor entender a conexão com os fios, foram testados a tecelagem com vários tipos de fios. Os fios com pouca estrutura, causavam um incômodo ao tecer, pois não se mantinham firmes na urdidura. O fio perfeito deveria ser o fio de Ariadne: seguro, firme, um condutor para chegarmos até a ancestralidade e retornarmos com segurança. Portanto, não poderia ser qualquer fio. Os fios de malhas, são flexíveis, mas com uma boa espessura e estrutura, sem deixarem de ser coloridos, acolhedores e de fácil manipulação no tear. * Tear de papel Papel, suporte para escrever nossas histórias, expressar nossas emoções através de desenhos e pinturas. Um tear de papel reciclado de tampas de caixas. Simples, ressignificado, personalizado com um trecho da poesia de Colasanti. Este objeto deixa de ser um simples tear, para ser um símbolo de afeto e cuidado da facilitadora, aproxima o tecer da simplicidade da vida. * Contos e poemas “As histórias são importantes porque ensinam, educam, ampliam o conhecimento, iluminam, provocam reflexões pessoais e coletivas, despertam sentimentos adormecidos[...]. (FARIAS, apud PHILIPPINI, 2022, p.118). No decorrer do tecer trechos de contos e poesias estavam cuidadosamente inseridas no material: no tear, no envelope que continha as agulhas e na própria agulha. Ao final da vivência, foi lido o conto ‘fiandeiras’ de Célia Gago. Também considero como pequenos contos ou poemas, as letras das músicas que embalaram a nossa tecelagem. **4.2 - Música \_ Melodia & letra** “O som musical tem acesso direto à alma. E aí encontra, porque o homem tem ‘a música em si mesmo’, um eco imediato. ” Kandinsky A música não tem fronteira, a música te conduz a um mergulho profundo em seu inconsciente. Um mergulho profundo em você. Ao longo da história as rodas de tecer eram embaladas por cantigas. Toda a vivência foi conduzida por diferentes tipos de músicas. Para cada etapa foram selecionadas músicas para conduzir os fios até seus destinos. No processo de seleção do repertório, as músicas certas para cada momento me encontraram! Músicas que eu nunca tinha ouvido ou sabia que existiam, se uniram em uma harmonia singular para embalar esta vivência. Em uma amplificação simbólica, foi composto, por uma das tecelãs, um canto espontâneo especialmente para esta vivência. Este canto ‘a *tecelã e o guerreiro’* embalou o encerramento da vivência, momento de rara beleza e uma conexão com o sagrado ancestral de cada uma das participantes. **4.3 -Vivência: A Tecelã e o Tear Musical** “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Carl Gustav Jung O objetivo desta vivência é facilitar aos participantes uma conexão com suas tecelãs ancestrais, resgatando sua sabedoria para olhar para seu presente e tecer seu futuro. Cada momento de tecitura foi conduzido por melodias e letras de músicas cuidadosamente selecionadas, para facilitar a conexão das participantes com as propostas. Cada tecelã foi convidada a tecer, em um tear de papel, um pequeno tapete de fios de malha representando sua existência, sua vida, sua história. **Passeio na tenda da fiandeira** Todas as participantes são convidadas a um passeio pela tenda da fiandeira, conduzidas por uma canção de fiar, recebem da fiandeira seus cestos de tecelãs. **Primeira tecitura** Convidar os tecelãs a voltarem o olhar para o seu cesto de tecer. Entrar em contato com cada material: a agulha, o tear, as frases e o conto. Pegar em suas mãos o fio de suas vidas, entrar em contato com seu clã de tecelãs e sua sabedoria ancestral. Tece junto com suas ancestrais. **Segunda tecitura** As tecelãs são convidadas a retornar para o momento presente, trazendo a sabedoria ancestral de seu clã. Apropriada da sabedoria ancestral, são convidadas a voltarem seu olhar para o momento presente. Se conectar consigo, refletir e tecer este momento. **Terceira tecitura** Guiar as tecelãs para contemplarem seus tapetes. Ao se estruturar na palma de nossas mãos, trama a trama, fio a fio nossa existência temos a possibilidade de contemplar nossas vidas e decidir como queremos tecer o nosso futuro. **Altar das tecelãs** As tecelãs são convidadas a juntarem os tapetes de suas vidas e formarem um altar. Um altar para honrar todas as que teceram antes de nós e a suas próprias vidas. Todas dançam junto ao redor deste altar. em agradecimento a vida e esta nossa egrégora que acaba de se formar. Para selar esta união, cada uma traz para este novo clã de tecelãs uma palavra que representa a emoção deste momento e finalizamos com a leitura do conto ‘fiandeiras’ de Célia Gago. **4.4 - Breve reflexões** Nas tramas desta vivência, diferentes fios conduziram as tecelãs até suas ancestralidades. Memórias de momentos felizes foram tecidos com tramas suaves e coloridas. Memórias de momentos difíceis foram tecidas em trama apertada, que fizeram ceder a urdidura. Memórias de momentos de dor, fizeram com que alguns fios fossem tecidos com dificuldade. No fluir das tramas alguns fios foram atados a outro para seguir as tecituras. Outros fios foram cortados e o fluxo da vida seguiu com outra cor. Para finalizar as tecituras, alguns fios foram trançados trazendo para o teat a força do guerreiro. Alguns fios foram amarrados e os tapetes retirados do tear, encerrando este momento. Mas, algumas tramas não foram retiradas dos teares, permanecendo como um objeto de contemplação. A força da tecelagem não cabe em descrição por palavras, precisa ser vivenciada, sentida na alma! Tecida fio a fio. **5. Considerações finais** No desenvolvimento deste artigo, fiz uso da agulha da minha própria história, de fios de diversos saberes como: mitologia, música e a linguagem expressiva dos materiais para, na urdidura do tear da Arteterapia, tecer uma teia de conexão com ancestralidade através da tecelagem. A sabedoria e a força da minha ancestralidade, de todas as tecelãs do meu clã que teceram antes de mim, mantiveram os meus pontos firmes e constantes para pesquisar meu embasamento teórico e desenvolver a vivência ‘a tecelã e o tear musical’. Constatei que o embasamento teórico, da materialidade e linguagem expressivas dos materiais usados no setting arteterapêutico, foi o ponto estruturador da vivência proposta. A partir deste estudo foi possível selecionar os materiais mais apropriados para guiar a nossa consigna. Entretanto, comprovei com a prática que o conhecimento teórico não exclui e não se faz mais importante do que a experimentação vivencial. Somente com a experimentação do leque de materiais cabíveis de serem usados nesta proposta, foi possível selecionar os que conduziram nossas tramas de forma fluida. Durante a vivência pude perceber a força dos fios e do tecer. Ao ver sua linha da vida sendo tramada e seu existir sendo materializado na palma de suas mãos, cada tecelã estabeleceu um diálogo próprio com os fios e seu tear. Cada trama trazia uma emoção, uma lembrança, um emaranhado de sentimentos que muitas vezes não puderam ser expressos por palavras. Encontrei nos estudos mitológicos os muitos contos, de diferentes origens, que traziam a mesma imagem arquetípica da tecelã e seus fios. A energia arquetípica dos mitos contidas em nosso inconsciente coletivo, guiam nossa história, e sim, esta energia esteve presente em nossa roda de tecelãs, guiando-nos à nossa ancestralidade. Percebi que a música fala por si, as melodias e letras conduziram cada fio ao seu destino, sem teorias… simples assim. Limitações normativas não permitiram que fosse possível aprofundar este estudo. Há muito ainda a ser exposto sobre o entrelace da Arteterapia com a tecelagem e a mitologia, para estabelecer uma conexão com a ancestralidade. Sugiro que, para entender a força dos fios e da tecelagem, se faça um tear de papel e aventure-se. Teça livremente! Só tecendo, podemos entender a força de tecer! **6. Referências bibliográficas** Arteterapia. In: DICIO, Oxford Learner's Dictionaries.Oxford, 2024. Disponível em: <>. Acesso em: 16 fev 2024. # A FOLHA DO VALE. Arquétipos & Poder: Aranha, tecelã do universo. 2018. Disponível em : <[https://www.a-folhadovale.com/single-post/2018/10/07/Arqu%C3 %A9tipos-Poder-Aranha-tecel%C3%A3-do-universo](https://www.a-folhadovale.com/single-post/2018/10/07/Arqu%C3%A9tipos-Poder-Aranha-tecel%C3%A3-do-universo)>. Acesso em: Acesso em: 10 jul 2023. CARDOSO, Maria das Graças Alves. Arteterapia e Tecelagem. 2021. Disponível em: <[https://institutofreedom.com.br/blog/Arteterapia-e-a-tecelagem/](https://institutofreedom.com.br/blog/arteterapia-e-a-tecelagem/)>. Acesso em: 11 fev 2024. # CARRANO, Eveline; REQUIÃO, Maria Helena. 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